O homen velho: exterior e terreno
Eis como a Divina Providência realiza no tempo a recuperação dos homens a quem o pecado fez merecer a condição mortal.
Primeiramente, todo homem, ao nascer neste mundo, só se entretém com suas condições naturais e de aprendizado.
Na primeira idade, passa a cuidar de seu corpo. Tudo isso é esquecido ao crescer. Segue-se a infância. Dessa já começamos a nos lembrar de mais algumas coisas. À infância, sucede a adolescência. Nela, a natureza torna o homem capaz de procriar e torna-se pai. À adolescência segue-se a juventude, em que já são exercidas funções públicas, sob a imposição das leis. Durante ela, a proibição de pecar é mais veemente e o castigo das transgressões oprime servilmente. Provoca-nos ânimos carnais, impetos libidinosos mais violentos a agravar todos os delitos cometidos. Porque não é pecado simples cometer o que não somente é mau, mas também proibido.
Depois das dificuldades da mocidade, a idade madura concede certa paz. Vem em seguida, uma idade de desgaste e declínio, sujeita à fraqueza e enfermidades, até chegar a morte.
Eis a vida do homem que vive conforme o corpo e deixa-se prender pela cobiça das coisas temporais. É o chamado homem velho e exterior, o homem terreno. Mesmo que tenha o que o vulgo chama de felicidade, vivendo em cidade terrena bem organizada, sob o governo de reis ou chefes, regida por leis ou por tudo de bom ao mesmo tempo. Aliás sem isso, um povo não pode se organizar como deve, mesmo se um só tenha objetivos terrestres. Na verdade, todo homem possui certa medida de beleza.
O homem novo: interior e espiritual
Eis o homem que acabamos de descrever: homem velho, exterior e terreno, seja nele guardada a conveniente moderação, seja que haja nele excessos devidos à sua condição servil. Há muitas pessoas que levam integralmente tal gênero de vida, desde seu nascimento até à morte.
Outros, porém, tendo começado por aí, renascem interiormente, mortificam-se, eliminam por seu crescimento de sabedoria, tudo o que resta do homem velho. Apegando-se estreitamente às leis divinas, esperam para depois da morte visível a renovação integral. Esse é o chamado homem novo, interior e celestial. Ele possui também, por analogias, suas idades espirituais, que se distinguem não pelos anos, mas por seus progressos.
Na primeira idade, a História, sempre benfazeja, o alimenta em seu regaço, pelos exemplos fornecidos.
Na segunda idade, o homem começa a esquecer o que é simplesmente humano e tende ao que é divino. Não se sente limitado por autoridade humana; mas dá passos seguindo sua própria razão e adianta-se no seguimento da lei soberana e imutável.
Na terceira idade, já mais seguro, casa a cupidez de sua sensualidade com o vigor de sua razão e, sua alma (psíquica), unindo-se ao espírito, cobrindo-se sob o véu do pudor, goza interiormente de doçura quase conjugal. Já não vive bem, só por obrigação, mas mesmo quando todos consentissem no permitivismo, não teria nenhum prazer em pecar.
Na quarta idade, prossegue, intensificando esse mesmo esforço. Desabrocha em homem perfeito, pronto e disposto a enfrentar todas as perseguições e turbilhões deste mundo e a triunfar.
Na quinta — nessa idade da tranquilidade e sossego completo — ele vive nas riquezas e abundância do Reino inalterável da sabedoria inefável e soberana.
Na sexta — idade de transformação total na vida eterna — ele esquece totalmente a vida temporal e passa àquela forma perfeita, à imagem e semelhança de DEUS.
Na sétima, é o repouso eterno e a beatitude perpétua, na qual não se distinguem mais as idades.
Assim como o fim do homem velho é a morte, o fim do homem novo é a vida eterna. O homem velho é o homem do pecado, e o novo é o da justiça.
O Processo Evolutivo
Mas esses dois homens: o velho e o novo, indubitalvelmente são de tal modo feitos, que o primeiro, isto é, o velho e terreno, pode viver pór si só, por toda sua existência neste mundo. Mas o homem novo e celestial, certamente, não poderia se formar no curso desta vida, senão em companhia do velho. É necessário que o homem novo se inicie do velho, e conviva com ele até a morte visível. Ainda enquanto um vai se enfraquecendo, o outro vai se desenvolvendo.
Assim, guardadas as proporções, acontece com o gênero humano, cuja vida se desenrola como a de uma só pessoa, desde Adão até o fim deste século. Pelas leis da Divina Providência que a governa, aparece a humanidade distribuída em duas classes. Uma constituída dos ímpios que trazem impressa a imagem do homem terreno desde o início dos tempos até o seu fim. A outra classe é formada das gerações de um povo consagrado ao único DEUS.
Adão a João Batista, conduziu DEUS a vida do homem terreno sob certa justiça servil. Sua história chama-se Antigo Testamento, sob a promessa de um reino temporal. Mas toda esta história, no seu conjunto, nada mais é do que a imagem do novo povo do Novo Testamento, ao qual é prometido o reino dos céus. A vida deste povo, na fase temporal, vai da vinda do SENHOR à humildade, até sua volta à Glória, no dia do Juízo.
Depois do que, o velho homem, tendo desaparecido, será aquela transformação definitiva e prometida: uma vida angélica. “Porque todos ressucitaremos, mas nem todos seremos transformados.”(1Cor 15:51 – versão itálica).
O povo santo, pois, ressucitará para ver em si os restos do velho homem transfigurados no homem novo. O povo ímpio também ressucitará, após haver realizado o velho homem do inicio ao fim, mas será para cair numa segunda morte.
Os que lerem diligentemente as Escrituras, encontrarão aí a distinção das idades. Não se espantará de encontrar misturadas a cizânia e a palha. Porque o ímpio vive para o homem piedoso, o pecador para o justo, a fim de que ao lado deles, se levante com estímulo maior para atingir a perfeição.
Ação dos Profetas e dos Evangelizadores
No tempo em que o povo era terreno, os que mereceram atingir a iluminação homens interiores, foram os auxiliares da humanidade. Manifestaram ao povo o que exigia a idade em que se encontravam, e que ainda não estavam no tempo da manifestação. assim, aparecem os patriarcas e os profetas, aos olhos daqueles que em vez de se entregarem a ataques pueris, estudavam com piedade e diligência o tão benéfico e sublime mistério das realidades divinas e humanas.
Essa mesma função, no tempo atual do novo povo, são os varões insignes e espirituais, discípulos da Igreja Católica que assumem com muita prudência, como podemos constatar.
Quando eles compreendem que certa questão não deve ainda ser proposta para o povo, guardam-na, mas espalham largamente o leite à multidão ávida, dos que ainda são fracos.
Todavia, juntamente com pequeno número de sábios, eles se nutrem de alimentos mais fortes. Pregam a sabedoria entre os perfeitos. Aos homens carnais e psíquicos que — apesar de serem homens novos — são ainda crianças, eles velam algumas coisas, sem jamais usar de mentiras. Não procuram atrair para si vãos elogios e cumprimentos futéis. Só procuram o proveito dos que mereceram ser seus companheiros nesta vida.
Esta é Lei da Divina Providência: que ninguém, para conhecer e obter a Graça de DEUS, seja ajudado pelos que lhe estão acima, anão ser os que com desinteressado afeto tenham ajudado aos que estão abaixo.
Assim, mesmo depois do nosso primeiro pecado que foi cometido por um homem pecador, e por isso por nossa própria natureza, o gênero humano chega a ser a glória e o ornamento deste mundo. A ação da Divina Providência foi tal que pela arte de tratamento indescritível, a própria fealdade dos vícios transforma-se em não sei quê de belo.
Fonte: Agostinho,Santo. De vera Religione, A Verdadeira Religião. Cáp 26 à 28. Ed Paulus.
terça-feira, 1 de junho de 2010
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